FAB impõe sigilo de até 100 anos sobre lista de passageiros de jato de Vorcaro

Aeronáutica rejeitou pedido via LAI para detalhar voos do Falcon 7X de R$ 200 milhões onde o banqueiro foi preso

Publicado em 15 de outubro de 2026 às 15:36

FAB impõe sigilo de até 100 anos sobre lista de passageiros de jato de Vorcaro.
FAB impõe sigilo de até 100 anos sobre lista de passageiros de jato de Vorcaro. Crédito: Reprodução/PF/Divulgação

A Força Aérea Brasileira (FAB) determinou a imposição de sigilo de até 100 anos sobre a lista de passageiros e os registros de voo da aeronave particular utilizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A negativa ocorreu após um pedido protocolado por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), que solicitava o plano de voo da aeronave de prefixo PS-FST entre os dias 10 e 20 de novembro de 2025.

Foi exatamente nesse intervalo de datas que Vorcaro acabou sendo preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) antes de decolar rumo a Malta, na Europa. A aeronave, um jato executivo Falcon 7X avaliado em R$ 200 milhões, foi apreendida no pátio do terminal.

Para barrar o acesso aos dados, o Comando da Aeronáutica invocou o artigo 31 da LAI, dispositivo que trata da proteção à intimidade e à vida privada.

A instituição militar justificou que "o itinerário de uma aeronave individualizada, em datas determinadas, permite associar deslocamentos aos dirigentes, sócios e demais usuários da aeronave, pessoas naturais identificáveis mediante o cruzamento com registros públicos". A Força Aérea argumentou ainda que a abertura dos registros permitiria o "rastreamento retrospectivo e a construção de perfil de deslocamento dessas pessoas", o que ampliaria a violação da privacidade dos passageiros.

A decretação do segredo de um século para o jato de Vorcaro não se trata de um caso isolado dentro do poder público federal.

Outras estruturas estatais recorreram ao mesmo artigo da LAI para negar solicitações de interesse público:

- Exército: impôs sigilo à lista de escolha de generais encaminhada ao Palácio do Planalto e a comunicações mantidas com a empresa de inteligência Palantir;

- Banco do Brasil: escondeu a lista com os nomes de quem visitou a presidência da estatal nos últimos anos;

- Secretaria de Comunicação Social (Secom): barrou a identificação de agentes públicos e autoridades que realizaram treinamentos de media training com recursos públicos desde 2021;

- Ministério da Pesca: colocou sob sigilo os beneficiários do programa de subvenção ao óleo diesel para embarcações pesqueiras.

Dados da Controladoria-Geral da União (CGU) mostram que o governo federal indeferiu aproximadamente 5,6 mil pedidos sob a justificativa de "dados pessoais" desde 2023. Embora o número represente uma redução frente às 7,1 mil negativas pelo mesmo motivo na gestão anterior, o recurso continua sendo mobilizado pela máquina pública.

O uso recorrente do artigo 31 contrasta com os compromissos assumidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a disputa presidencial de 2022. Na ocasião, o então candidato criticou o uso do mecanismo pelo governo de Jair Bolsonaro e prometeu publicamente extinguir a regra.

"Não haverá sigilo nas contas públicas. Não haverá sigilo de 100 anos nem de 10 anos nem de um dia. E a Lei de Acesso à Informação será cumprida. No primeiro dia de governo, nós vamos fazer um decreto para acabar com esse sigilo de 100 anos", garantiu Lula em setembro de 2022. Apesar de a CGU ter revisto restrições pontuais herdadas da gestão anterior, a norma legal que ampara o sigilo centenário não foi revogada e continua respaldando vetos a informações públicas.