Investigação revela trituração em massa de pintinhos em uma indústria de ovos no Sul

Prática de descarte de recém-nascidos é comum no setor devido à impossibilidade de botarem ovos e à inadequação para corte

Publicado em 8 de setembro de 2026 às 18:02

Investigação realizada pela organização Mercy For Animals (MFA) expôs a prática de descarte e trituração sistemática de pintinhos machos recém-nascidos.
Investigação realizada pela organização Mercy For Animals (MFA) expôs a prática de descarte e trituração sistemática de pintinhos machos recém-nascidos. Crédito: Mercy For Animals/Divulgação

Uma investigação realizada pela organização Mercy For Animals (MFA) expôs a prática de descarte e trituração sistemática de pintinhos machos recém-nascidos em um incubatório de grande porte no Sul do país. De acordo com os registros da entidade, que manteve o nome da empresa em sigilo, aproximadamente 35 mil animais foram mortos em apenas um dia na unidade vistoriada.

Os pintinhos descartados tinham menos de 24 horas de vida e eram jogados em máquinas de alta velocidade com lâminas rotativas. Esse procedimento ocorre porque os machos não são capazes de pôr ovos e não possuem as características genéticas necessárias para serem aproveitados pela indústria produtora de carne. Na dinâmica atual da cadeia produtiva, eles acabam separados das fêmeas imediatamente após o nascimento e encaminhados para a eliminação. Fêmeas que apresentam deformidades, sangramentos, nascimento prematuro ou que simplesmente excedem as cotas de demanda também são eliminadas, embora em menor quantidade.

A vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider, apontou que o objetivo do trabalho não foi o de focar em um caso isolado, mas sim expor uma prática comum e institucionalizada em quase toda a indústria de ovos. Ela destaca o aspecto ético da senciência animal — a habilidade de sentir medo e dor física. "Eles têm o sistema nervoso completamente formado", ponderou a especialista, alertando também que os maceradores mecânicos nem sempre matam os animais de forma instantânea, o que pode prolongar a dor.

A organização planeja encaminhar uma denúncia formal ao Ministério Público para que o caso e as práticas industriais registradas sejam analisados pelas autoridades competentes do país.

Como alternativa viável a esse cenário, especialistas propõem a adoção da técnica de sexagem in ovo, que consiste em identificar o sexo do embrião diretamente na fase de incubação. Com isso, os ovos contendo embriões machos podem ser descartados muito antes da eclosão, impedindo o nascimento e a trituração posterior.

Esse método já ganhou escala internacional. Na União Europeia, cerca de 130 milhões de galinhas poedeiras (de um total de 340 milhões) tiveram sua origem em técnicas de sexagem in ovo em junho de 2026. Países como Alemanha, França, Áustria e Itália criaram leis para banir a trituração, enquanto a Noruega e a Suíça iniciaram a transição por livre iniciativa do mercado consumidor. No Brasil, a primeira máquina desse tipo só foi instalada em julho de 2025 no incubatório da Hy-Line, localizado no município paulista de Nova Granada, operando para a empresa Raiar Orgânicos. Os ovos gerados por meio desse método começaram a ser vendidos em dezembro daquele ano.

Apesar de existente, a tecnologia opera no mercado nacional muito abaixo de sua capacidade real. O entrave que impede a popularização é, sobretudo, financeiro. O método de triagem e descarte convencional custa cerca de R$ 7 por ave no Brasil, enquanto o acréscimo do equipamento tecnológico de sexagem eleva o preço entre R$ 5 e R$ 10 por ave, gerando um impacto de 80% a 150% na compra do animal pelo produtor. No entanto, entidades apontam que esse custo extra se dilui ao longo da vida da poedeira (que põe em média 350 ovos), custando apenas alguns centavos a mais por dúzia de ovos para o consumidor final. De acordo com pesquisas da Innovate Animal Ag, 76% dos consumidores brasileiros dizem estar dispostos a pagar um valor adicional médio de R$ 3,87 por dúzia para evitar o descarte dos filhotes.

O tema da proibição da trituração de pintinhos já tramita no Congresso Nacional por meio de dois Projetos de Lei: o PL 783/2024, de autoria da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), e o PL 3034/2026, apresentado pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ). No entanto, o projeto de 2024 recebeu parecer contrário na Comissão de Agricultura devido a temores econômicos sobre os custos da transição industrial e agora aguarda para ser submetido ao plenário da Câmara.

Com informações da Agência Brasil.

Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Adrielle Brito.