PF conclui investigação sobre queda de avião da Voepass e indicia 16 pessoas

Relatório aponta que acidente foi provocado por uma combinação de falhas operacionais, problemas de manutenção e condições meteorológicas severas.

Publicado em 6 de agosto de 2026 às 17:21

Relatório aponta que acidente foi provocado por uma combinação de falhas operacionais, problemas de manutenção e condições meteorológicas severas. 
Relatório aponta que acidente foi provocado por uma combinação de falhas operacionais, problemas de manutenção e condições meteorológicas severas.  Crédito: Reprodução 

A Polícia Federal concluiu a investigação sobre a queda do avião da Voepass, que deixou 62 mortos em agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo, e indiciou 16 pessoas por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo. O relatório aponta que o acidente foi resultado de uma combinação de falhas técnicas, negligências operacionais e condições climáticas adversas, além de indicar que a aeronave foi exposta a riscos que poderiam ter sido evitados.

Entre os indiciados está José Luis Felicio Filho, proprietário da companhia aérea sediada em Ribeirão Preto (SP), além do diretor de manutenção, Henrique Eric Cônsoli, e outros funcionários ligados às áreas técnica e operacional. O CEO da empresa, Eduardo Busch, não foi indiciado porque, segundo a investigação, sua atuação era voltada às áreas financeira e de recursos humanos, sem participação nas decisões de manutenção e operação da frota.

O relatório da Polícia Federal foi apresentado nesta quinta-feira, após uma reunião reservada com familiares das vítimas. A investigação concluiu que a queda da aeronave ocorreu em razão da combinação de fatores meteorológicos, falhas mecânicas conhecidas e decisões operacionais consideradas inadequadas.

Segundo o delegado André Ribeiro, chefe da Delegacia da Polícia Federal em Campinas, a perícia comprovou que a aeronave foi colocada em situação de risco diversas vezes antes do acidente.

"O gelo severo previsto na rota já deveria impedir o despacho da aeronave. Identificamos que ela foi exposta ao perigo em quatro momentos distintos", afirmou.

A investigação também revelou que a Voepass mantinha uma cultura interna de omissão de falhas técnicas. De acordo com a Polícia Federal, comandantes eram orientados a não registrar defeitos encontrados nas aeronaves para evitar que os aviões fossem retirados de operação, garantindo a continuidade da malha aérea mesmo diante de problemas mecânicos.

Os investigadores apontaram que tripulações anteriores identificaram falhas no sistema de degelo da aeronave, mas deixaram de registrar os problemas no Diário Técnico, documento utilizado para comunicar defeitos à equipe de manutenção. Com isso, os reparos não foram realizados antes do voo que terminou em tragédia.

A perícia também concluiu que a aeronave não deveria ter decolado. Além do sistema de degelo apresentar falhas conhecidas, os limpadores de para-brisa estavam inoperantes, condição que impediria o voo diante da previsão de chuva no destino. Mesmo assim, a operação foi autorizada pela companhia e aceita pelo comandante.

Outro ponto destacado no relatório foi o atraso superior a 73 horas de voo em uma inspeção preventiva do sistema de degelo. Os peritos ainda identificaram indícios de erro humano em manutenções anteriores, que podem ter comprometido o funcionamento de um sensor responsável pelo controle da aeronave.

Durante o voo, segundo a Polícia Federal, a tripulação também deixou de executar procedimentos de emergência previstos para situações de formação severa de gelo. Em vez de priorizar ações para recuperar o controle da aeronave, os pilotos permaneceram concentrados em procedimentos rotineiros de cabine, desperdiçando uma janela de cerca de 20 segundos que, de acordo com a perícia, poderia ter evitado o acidente.

Os 16 investigados responderão pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo, atentado contra a segurança do transporte aéreo qualificado pela queda da aeronave com resultado morte e falsidade ideológica. O caso seguirá para análise do Ministério Público Federal, que decidirá sobre o eventual oferecimento de denúncia à Justiça.