Publicado em 16 de outubro de 2026 às 18:04
Trocas de mensagens e registros telefônicos extraídos pela Polícia Federal (PF) do aparelho celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam uma intensa rotina de contatos e proximidade com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Segundo os relatórios das investigações, ambos realizaram ao menos 100 conversas por telefone e agendaram 19 encontros presenciais entre março de 2024 e outubro de 2025. Os dados da perícia apontam ainda outras 102 chamadas não completadas no mesmo período.>
As conversas registram tratativas sobre a eleição para o comando da Câmara, discussões em torno de projetos legislativos, uma possível sociedade entre ambos e assuntos relativos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ao longo dos diálogos, os dois costumavam se tratar pelo termo "irmão", vocábulo registrado 150 vezes nas mensagens.>
Em novembro de 2024, durante as articulações para a sucessão na presidência da Câmara, Vorcaro sugeriu cautela, recomendando silenciar publicamente e atuar nos bastidores. Em resposta, Motta afirmou: “Só o que tô procurando fazer, depois que concluir os partidos é partir para o individual com cada deputado. São 3 meses até a eleição, tempo demais”. Na virada do ano de 2024 para 2025, o deputado enviou uma mensagem de voz desejando saúde para seguirem “cada vez mais juntos”, ao que o empresário respondeu ter “muito orgulho” de acompanhar sua trajetória.>
As mensagens também mostram intervenções relacionadas ao FGC, entidade que acumulou um passivo superior a R$ 50 bilhões após a intervenção e liquidação do Banco Master em decorrência de fraudes financeiras. Em 23 de março de 2025, Motta pediu que Vorcaro solicitasse a sua equipe técnica um estudo sobre o fundo: “se vc for a Brasília essa semana podemos voltar a falar para ver onde podemos tentar encaixar esse assunto. Estou a disposição! Abs”. O então banqueiro disse que estava tocando a questão, e o parlamentar respondeu que o movimento era “importante para mudarmos essa realidade”.>
Os registros periciados pela PF identificaram que Hugo Motta recorreu a Vorcaro para solicitar transporte aéreo em ao menos três ocasiões — duas caronas em avião executivo e uma em helicóptero. Em uma das oportunidades, o parlamentar consultou a viabilidade de retornar ao Brasil a bordo da aeronave do banqueiro após um casamento no exterior. Na ocasião, escreveu: “Se vc for ao casamento e eu não conseguir ficar lá a próxima semana como programei, poderia voltar contigo? [...] Vc sabe que com a gente não tem frescura”.>
Além dos voos, o deputado solicitou, em março de 2025 — período em que já presidia a Câmara dos Deputados —, cinco ingressos para um camarote no Carnaval do Rio de Janeiro. Os relatórios mostram ainda combinações de encontros descontraídos, como em maio de 2025, quando Motta perguntou ao banqueiro se fariam “uma farrinha ou só resenha”, e menções a reuniões institucionais no Ministério da Fazenda.>
Em manifestação enviada por sua assessoria, Hugo Motta declarou que sempre manteve diálogo transparente com diversos setores empresariais e representantes da sociedade. O presidente da Câmara enfatizou que não há qualquer ato ilícito nas mensagens divulgadas e repudiou o uso de conversas fora de contexto para sugerir favorecimento indevido ou interesses escusos.>
Motta reiterou contar com uma trajetória pública íntegra ao longo de 15 anos de atividade política e ressaltou que contratos de crédito entre entes privados citados no caso ocorreram antes de qualquer investigação sobre o Master se tornar pública, frisando sua total confiança no trabalho das autoridades investigativas. A defesa de Daniel Vorcaro não se pronunciou.>