PF investiga entrada de malas sem fiscalização em voo com cúpula da Câmara, Senado e empresário de bets

Inquérito aponta que piloto de aeronave vinda do Caribe burlou raio-x com conivência de auditor da Receita; caso envolvendo Hugo Motta e Ciro Nogueira foi enviado ao STF.

Publicado em 28 de abril de 2026 às 17:53

Print das gravações do desembarque.
Print das gravações do desembarque. Crédito: Reprodução/Internet

A Polícia Federal (PF) instaurou uma investigação para apurar os crimes de prevaricação e descaminho envolvendo o desembarque de bagagens sem fiscalização no Aeroporto Executivo Internacional São Paulo Catarina. O episódio ocorreu em um voo privado vindo da ilha de São Martinho, no Caribe, território considerado paraíso fiscal, que transportava figuras centrais da política brasileira e um empresário do setor de apostas.

Entre os passageiros estavam o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), os deputados federais Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), além de Fernando Oliveira Lima, conhecido como "Fernandin OIG", apontado como operador de plataformas de apostas.

De acordo com o relatório da PF, imagens do circuito de segurança registradas na noite de 20 de abril de 2025 mostram o piloto José Jorge de Oliveira Júnior realizando uma manobra para evitar a inspeção. Após passar inicialmente pelo raio-x com duas malas, ele teria retornado minutos depois com sete volumes, incluindo mochilas, caixas e até um edredom, e contornado o pórtico de detecção de metais sem submeter os itens à fiscalização.

A investigação aponta que o auditor da Receita Federal Marco Antônio Canella teria acompanhado a movimentação e permitido a passagem dos volumes sem a devida conferência. Registros de agentes aeroportuários indicam ainda uma possível "irregularidade generalizada" no desembarque, com a liberação de eletrônicos e garrafas sem os protocolos padrão.

Devido à presença de parlamentares com prerrogativa de foro, o caso foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) em março deste ano pela Justiça Federal de Sorocaba. A PF argumentou que não é possível descartar o envolvimento das autoridades nas condutas ilícitas, embora não se saiba categoricamente o conteúdo das malas ou a quem pertenciam. O ministro Alexandre de Moraes foi designado relator do caso e já solicitou a manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em nota, o deputado Hugo Motta afirmou ter cumprido todos os protocolos da legislação aduaneira e disse que aguardará a manifestação da PGR. O deputado Dr. Luizinho informou que não irá se manifestar, enquanto o senador Ciro Nogueira e os demais citados não responderam aos contatos até o momento. O piloto não foi localizado pela reportagem.

Texto por Suellen Godinho, com supervisão de Cássio Leal.