Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 10:28
Um resort de luxo instalado no interior do Paraná passou a ocupar o centro de uma controvérsia que mistura turismo, jogos de apostas e o Judiciário. O Tayayá Resort, localizado em Ribeirão Claro, ganhou notoriedade por abrigar uma área dedicada a jogos e por manter vínculos empresariais com familiares do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator de processos sensíveis que envolvem o sistema financeiro.>
No espaço destinado à jogatina, hóspedes encontram máquinas eletrônicas de apostas e mesas para jogos de cartas. Entre as modalidades oferecidas está o blackjack, prática em que jogadores enfrentam um distribuidor para alcançar a soma de 21 pontos, um tipo de aposta presencial que, quando envolve dinheiro, é proibida pela legislação brasileira. As apostas, segundo relatos colhidos no local, são realizadas com valores em espécie.>
Embora o nome do ministro não apareça formalmente nos registros do empreendimento, o resort é conhecido na cidade como “resort do Toffoli”. Funcionários tratam o magistrado como proprietário e afirmam que ele frequenta o local com regularidade. No complexo, há residências de alto padrão e áreas reservadas, além de embarcações mantidas no píer particular.>
Mudanças societárias e relações empresariais>
O Tayayá foi construído por uma incorporadora ligada a irmãos de Dias Toffoli. Posteriormente, o controle do empreendimento passou por mudanças: ações chegaram a integrar um fundo que tinha entre os investidores o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, banqueiro ligado ao Banco Master. O ministro atua como relator de investigações relacionadas à instituição financeira.>
Mais recentemente, o resort foi vendido por parentes do ministro a um advogado ligado ao grupo J&F, conglomerado dos irmãos Joesley e Wesley Batista, que também já figurou em processos analisados por Toffoli no Supremo.>
Mesmo após a venda, o local foi fechado no fim de 2025 para um evento privado organizado pelo ministro, segundo funcionários. A confraternização reuniu convidados, artistas e o ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário. Durante a celebração, ainda conforme relatos internos, a área de jogos teria sido inaugurada simbolicamente.>
Jogos permitidos e práticas questionadas>
A área de apostas do resort conta com 14 máquinas de vídeo loteria. Esse tipo de equipamento foi autorizado aos estados após decisão do STF em 2020, que entendeu não haver exclusividade da União para explorar a modalidade. Na ocasião, Toffoli acompanhou o voto do relator, ministro Gilmar Mendes.>
Apesar disso, especialistas ressaltam que a autorização não se estende a jogos de azar presenciais, como partidas com “dealers” ou jogos de cartas com apostas em dinheiro, que seguem proibidos no país. Reportagem no local flagrou a realização desse tipo de prática fora do horário oficial de funcionamento, além da ausência de controle rigoroso de acesso. Em pelo menos duas ocasiões, crianças foram vistas próximas às máquinas de apostas, em ambiente compartilhado com adultos consumindo bebidas alcoólicas.>
Estrutura e perfil do resort>
Às margens da represa de Xavantes, na divisa do Paraná com São Paulo, o Tayayá aposta em uma arquitetura rústica e em uma estrutura de alto padrão. O complexo reúne seis piscinas, três aquecidas, quadras esportivas e programação recreativa infantil. As diárias ultrapassam R$ 2 mil nas acomodações mais simples, e o acesso exige logística diferenciada, com voos fretados até Ourinhos (SP) e traslado de helicóptero.>
Ministros do STF já teriam se hospedado no local, segundo funcionários, entre eles Cármen Lúcia. Uma das residências internas é utilizada por um irmão de Toffoli, que também participou dos negócios imobiliários ligados à construção do resort.>
Defesa>
Procurado, o advogado Paulo Humberto, ligado ao empreendimento, negou a existência de atividades ilegais. Segundo ele, as máquinas disponíveis são autorizadas pela loteria estadual e as mesas de cartas servem apenas para recreação dos hóspedes, sem estímulo ou organização de apostas.>