Visto negado barra torcedores no Mundial e transforma prêmio de Copa do Mundo em frustração

Sem facilitação consular nos Estados Unidos, exigências rígidas deixam brasileiros premiados de fora e expõem barreiras geográficas enfrentadas por fãs de vários países.

Publicado em 21 de junho de 2026 às 09:53

Visto negado barra torcedores no Mundial e transforma prêmio de Copa do Mundo em frustração
Visto negado barra torcedores no Mundial e transforma prêmio de Copa do Mundo em frustração Crédito: Reprodução

Ganhar uma viagem com tudo pago para assistir ao Brasil em uma Copa do Mundo é o ápice do desejo de qualquer torcedor. Para a enfermeira Raphaela Coiado, de 24 anos, moradora de Hortolândia, no interior de São Paulo, esse sonho virou realidade após o marido vencer uma acirrada competição de vendas promovida pela Coca-Cola. O prêmio era de luxo: passagens, cinco dias de hospedagem e ingressos de camarote para o jogo da seleção brasileira contra o Haiti, na Filadélfia. O destino, porém, esbarrou em uma barreira intransponível: a política de imigração norte-americana. Ela, o marido e quatro familiares tiveram o visto de entrada negado no consulado do Rio de Janeiro, transformando a euforia em lágrimas e frustração.

A saga da família paulista envolveu uma corrida contra o tempo, atualização emergencial de documentos, passaporte tirado às pressas e semanas de treino intenso com inteligência artificial para simular a entrevista consular. Como as vagas na capital paulista estavam abertas apenas para setembro, o grupo investiu cerca de R$ 5 mil entre taxas consulares de R$ 900 por pessoa, assessoria e viagem ao Rio. No momento do atendimento, perguntas sobre renda e profissão culminaram em uma rejeição coletiva sem justificativa detalhada. Sem o visto e restando poucos dias para o torneio, a saída foi vender o pacote por R$ 25 mil, um retorno financeiro que, segundo Raphaela, não apaga a dor de perder o que seria uma experiência lendária.

A situação vivida pelos brasileiros está longe de ser um caso isolado e expõe o que especialistas chamam de "porteiro invisível" da Copa do Mundo de 2026. Diferente das últimas edições no Catar, Rússia, Brasil e África do Sul que criaram regimes especiais e simplificados de entrada para os portadores de ingressos, os Estados Unidos mantiveram suas regras tradicionais e rígidas de fronteira. Embora exista o chamado FIFA Pass para dar prioridade na fila de agendamentos, o mecanismo apenas acelera o dia da entrevista, mas não garante e nem influencia na aprovação do documento.

Essa postura governamental escancarou uma enorme assimetria global entre as nações participantes. Enquanto cidadãos de 42 países de alta renda entram em solo americano pagando apenas uma taxa digital de US$ 40, torcedores de outras nações enfrentam o custo de US$ 185 e entrevistas presenciais burocráticas. O cenário é ainda pior para 11 dos 48 países classificados para o Mundial, como Equador, Senegal, Haiti e Gana, cujas taxas de rejeição superam os 40%. Em locais como o Iraque, a suspensão de serviços consulares por segurança obrigou torcedores a gastarem milhares de dólares viajando a outros países vizinhos apenas para ouvirem uma negativa, gerando um sentimento de exclusão e protestos de associações internacionais que apontam que o torneio acabou se tornando acessível apenas para uma parcela privilegiada do planeta.