Investigação revela esquema de extorsão envolvendo delegado, promotor e juiz no Pará

Inquérito aponta promotor como peça central na articulação de cobranças para favorecer investigados. Caso foi notícia no Fantástico, da TV Globo

Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 21:57

Inquérito aponta promotor como peça central na articulação de cobranças para favorecer investigados
Inquérito aponta promotor como peça central na articulação de cobranças para favorecer investigados Crédito: Reprodução

Uma investigação do Ministério Público do Pará revelou a existência de um suposto esquema de extorsão que teria atuado por anos dentro do sistema de Justiça do estado. A apuração, exibida em reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, aponta o envolvimento de um delegado da Polícia Civil, um promotor de Justiça e um juiz, com o promotor sendo descrito no inquérito como peça fundamental para o funcionamento do esquema criminoso.

O caso veio à tona a partir de um atropelamento registrado por câmeras de segurança no fim da madrugada, em Belém. As imagens mostram um homem sendo atingido enquanto se exercitava em uma ciclofaixa. A vítima sobreviveu, o motorista foi identificado e o episódio ganhou repercussão. A partir daí, segundo os investigadores, a apuração do acidente acabou abrindo caminho para a descoberta de um esquema maior.

De acordo com o Ministério Público, a rede de extorsão atuava desde 2021 e funcionava como uma espécie de justiça paralela. Investigados seriam cobrados para obter decisões favoráveis ou encaminhamentos mais brandos em inquéritos e processos.

No caso do atropelamento, uma parente do motorista reconheceu o delegado responsável pelo inquérito ao vê-lo na televisão e enviou um áudio a Arthur Afonso Nobre de Araújo Sobrinho, afirmando que policiais estariam pedindo dinheiro para aliviar a situação. Em uma das mensagens, ela cita o valor de R$ 25 mil.

Embora o delegado negue a extorsão em áudios enviados à mulher, a investigação reuniu conversas privadas nas quais valores e cobranças aparecem de forma explícita. Em um dos áudios atribuídos a Arthur Nobre, ele afirma que “quem paga mal, paga duas vezes”. Em outro, diz que não se arriscaria por quantias menores.

O inquérito também aponta trocas de mensagens entre o delegado e seu então superior imediato, o diretor metropolitano da Polícia Civil à época, Carlos Daniel Fernandes de Castro. Em conversas, há comentários sobre lotações em delegacias, oportunidades de arrecadação e frases irônicas relacionadas a enriquecimento ilícito.

Segundo os investigadores, a atuação do esquema só era possível graças à participação direta do promotor Luiz Márcio Teixeira Cypriano, da 2ª Promotoria de Controle Externo da Atividade Policial. O Ministério Público afirma que ele tinha papel central na engrenagem criminosa, sendo responsável por dar aparência de legalidade aos procedimentos, indicar alvos e combinar valores. Mensagens analisadas mostram tratativas para entrega de dinheiro e divisão de quantias.

Em janeiro de 2024, por exemplo, o delegado escreve ao promotor que levaria “mais três”, referência que a investigação associa a R$ 3 mil em dinheiro vivo.

No episódio do atropelamento, o inquérito aponta que o delegado enviou o vídeo do acidente ao promotor, que em seguida solicitou oficialmente a abertura do inquérito, mesmo fora da jurisdição original. A partir desse pedido, Arthur Nobre assumiu o caso e, segundo o Ministério Público, passou a cobrar os R$ 25 mil.

A investigação também alcança o Judiciário. O juiz Jackson José Sodré Ferraz é investigado pelo Tribunal de Justiça do Pará. Entre os casos citados está a operação Truque de Mestre, realizada em 2023 contra influenciadores suspeitos de promover jogos de azar. De acordo com a apuração, o juiz autorizou prisões e buscas durante um plantão, a pedido do delegado, com parecer favorável do promotor.

Uma das presas na operação, a influenciadora Noelle Araújo, afirmou em entrevista ao Fantástico que pagou R$ 500 mil para tentar resolver sua situação, por meio de advogados. A investigação indica ainda que Caio Ferraz, filho do juiz, é suspeito de intermediar repasses de dinheiro.

Atualmente, o delegado Arthur Nobre está afastado do cargo, mas segue recebendo salário de cerca de R$ 28 mil. Ele já foi preso três vezes, é réu e responde em liberdade. O promotor Luiz Márcio também foi afastado, continua recebendo cerca de R$ 68 mil mensais e, segundo a defesa, optou por não se manifestar neste momento. Carlos Daniel Castro também foi afastado e informou, por meio da defesa, que analisa os autos antes de apresentar posicionamento. A investigação segue em andamento.