Publicado em 3 de novembro de 2026 às 14:17
Na manhã desta terça-feira (3), foi confirmada a morte do atacante Jesús de Miguel, do Tenerife, equipe do futebol espanhol, após uma parada cardíaca provocada por uma forte colisão com o goleiro adversário durante uma partida. O jogador chegou a ser reanimado em campo e levado ao hospital, mas apresentou piora no quadro neurológico. A principal suspeita para a causa da morte é a commotio cordis, uma condição rara desencadeada por impactos no tórax.>
A commotio cordis, expressão em latim que significa “agito no coração”, pode provocar uma interrupção repentina dos batimentos cardíacos após uma pancada no peito. De acordo com a American Heart Association, o impacto pode alterar o funcionamento elétrico do coração e desencadear uma parada cardíaca súbita.>
Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que o impacto não precisa necessariamente ser muito intenso para provocar a condição. O risco depende também do momento em que a pancada atinge o tórax durante o ciclo cardíaco.>
“Às vezes você não tem uma fratura, pode ser uma pancada menor, uma joelhada, uma bolada não tão intensa, mas que se pega no momento de uma alteração eletrofisiológica, leva a uma arritmia cardíaca e a uma parada”, detalha.>
Casos semelhantes já foram registrados em modalidades esportivas de maior contato físico, como o futebol americano. Em 2023, o jogador Damar Hamlin, da NFL, também precisou ser reanimado após sofrer um choque durante uma partida.>
A rapidez no atendimento é fundamental para aumentar as chances de sobrevivência de vítimas de commotio cordis. Segundo Avanza, o socorro precisa ocorrer em poucos minutos para evitar consequências graves.>
“O socorro tem que chegar nesse paciente em no máximo três minutos. Senão, nós podemos não conseguir reanimá-lo e levar a uma situação de lesões neurológicas irreversíveis”, afirma.>
No caso de Jesús de Miguel, o atleta foi reanimado após a parada cardíaca e encaminhado ao hospital. Entretanto, o quadro neurológico se agravou durante a madrugada, e a morte foi confirmada na manhã desta terça-feira.>
Mesmo pessoas jovens, saudáveis e sem histórico de problemas cardiovasculares podem sofrer commotio cordis, já que a condição está relacionada ao impacto direto no tórax.>
As consequências neurológicas podem ocorrer devido à falta de oxigênio no organismo, conhecida como hipóxia. Durante uma parada cardíaca, o coração deixa de bombear sangue adequadamente para os órgãos, incluindo o cérebro, cujas células são especialmente sensíveis à ausência de oxigenação.>
“Em uma parada cardíaca, o coração para momentaneamente de bombear sangue para o corpo inteiro, inclusive para o cérebro. O dano neurológico pode acontecer porque as células do cérebro são muito sensíveis, e sem oxigênio, pode acontecer a morte de células nervosas”, explica Avanza.>
Dependendo da região cerebral afetada, as lesões podem ser irreversíveis e levar à morte.>
Além da commotio cordis, especialistas também apontam a possibilidade de uma lesão estrutural no coração, conhecida como contusio cordis. A condição é caracterizada por hemorragias e necrose provocadas por um traumatismo direto no músculo cardíaco.>
“Um trauma torácico direto pode acontecer por fratura de uma costela, perfuração, com lesão do coração”, comenta Avanza.>
Segundo o especialista, além da alteração elétrica responsável pela interrupção dos batimentos cardíacos, uma possível lesão estrutural também pode ter contribuído para o agravamento do quadro do jogador.>