Mais de 25% dos países na Copa do Mundo 2026 vivem sob a sombra de guerras e conflitos

Enquanto a bola rola nos gramados da América do Norte, 13 das 48 seleções participantes carregam o peso de crises humanitárias, disputas territoriais e tensões militares em seus territórios.

Publicado em 12 de junho de 2026 às 07:33

Mais de 25% dos países na Copa do Mundo 2026 vivem sob a sombra de guerras e conflitos
Mais de 25% dos países na Copa do Mundo 2026 vivem sob a sombra de guerras e conflitos Crédito: Reprodução/Fifa

A Copa do Mundo de 2026, celebrada de forma conjunta por Estados Unidos, México e Canada, vende para o planeta uma imagem de festa, união e celebração por meio do esporte. No entanto, os bastidores de geopolítica por trás das cortinas do maior torneio de futebol do planeta revelam um cenário alarmante. Pouco mais de 27% das nações que conseguiram vaga para a competição deste ano estão envolvidas de forma direta ou indireta em conflitos armados violentos. Das 48 seleções classificadas para o torneio, 13 delas convivem diariamente com realidades de guerra tradicional ou violência interna severa alimentada por grupos paramilitares, cartéis e facções criminosas.

A lista dos participantes que jogam o Mundial sob o fantasma da guerra inclui os próprios anfitriões Estados Unidos e México, além de Haiti, Irã, Jordânia, Catar, Arábia Saudita, Colômbia, Marrocos, Argélia, República Democrática do Congo, Iraque e Coreia do Sul. O contraste mais evidente desta edição fica por conta do embate velado no Oriente Médio. Enquanto se preparam para os jogos, os EUA vivem um conflito militar contra o próprio Irã, que também disputa a Copa. A crise explodiu em fevereiro, após bombardeios norte-americanos em solo persa, e segue em uma trégua instável, com registros de ataques mútuos dias antes do início do Mundial. Vizinhos como Iraque, Jordânia, Catar e Arábia Saudita também sofreram impactos e bombardeios iranianos voltados a instalações americanas na região.

Mesmo diante da ofensiva contra o Irã e de episódios como a invasão da Venezuela para a captura do ex-presidente Nicolás Maduro em janeiro, a Fifa optou por manter uma postura de estrita neutralidade, sem aplicar nenhuma sanção aos EUA. A decisão da entidade liderada por Gianni Infantino gerou debates na comunidade internacional, especialmente porque, em 2022, a federação agiu de forma oposta ao suspender a Rússia devido à invasão da Ucrânia. O clima de tensão fez o governo de Donald Trump sugerir que o Irã fosse excluído e substituído pela Itália. A Fifa não cedeu, mas a delegação iraniana enfrentou graves barreiras logísticas, incluindo atrasos na emissão de vistos, a necessidade de mover seu centro de treinos para Tijuana, no México, e a permissão para pisar em solo americano somente 36 horas antes de cada confronto.

Paralelamente às guerras internacionais, o futebol também tenta mascarar crises humanitárias de violência doméstica. O coanfitrião México enfrenta uma sangrenta guerra contra o narcotráfico que já dura duas décadas e ganhou contornos dramáticos em fevereiro com a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o "El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração, que provocou uma onda de retaliações com 73 mortes. Cenário semelhante ao da Colômbia, que lida com cartéis e as ações do grupo guerrilheiro ELN, e do Haiti, onde gangues controlam 80% da capital Porto Príncipe, gerando uma crise que forçou 1,4 milhão de refugiados internos a deixarem suas casas.

Por fim, o torneio ainda abriga conflitos históricos e "esquecidos", como o da República Democrática do Congo. Sediado no leste do país, o combate contra os rebeldes do grupo M-23, que avançaram por mais de 34 mil quilômetros quadrados em 2025 é herança direta das tensões étnicas pós-genocídio de Ruanda em 1994. Já nações como Coreia do Sul, Marrocos e Argélia jogam sob o peso de impasses adormecidos: os sul-coreanos permanecem tecnicamente em guerra com a Coreia do Norte desde a década de 1950, resguardados por um armistício frágil, enquanto o governo marroquino enfrenta as hostilidades de baixa intensidade da Frente Polisário pela independência do Saara Ocidental.