Polônia abre debate sobre arsenal nuclear próprio diante de tensão com a Rússia

Presidente Karol Nawrocki defende projeto nacional de dissuasão, enquanto governo e aliados tratam tema como estratégico e sensível.

Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 08:22

Polônia abre debate sobre arsenal nuclear próprio diante de tensão com a Rússia
Polônia abre debate sobre arsenal nuclear próprio diante de tensão com a Rússia Crédito: Reprodução/Instagram/@nawrockipl

A possibilidade de a Polônia desenvolver armas nucleares próprias passou a ocupar o centro do debate político no país após declarações do presidente Karol Nawrocki. Em entrevista à emissora Polsat News, no domingo (15), o chefe de Estado afirmou que considera necessário discutir a criação de uma capacidade nuclear nacional como forma de fortalecer a segurança diante do que classificou como postura “agressiva e imperial” da Rússia.

Responsável por conduzir a política externa e comandante das Forças Armadas polonesas, Nawrocki declarou ser favorável à adesão da Polônia a um projeto nuclear próprio, respeitando normas internacionais. Questionado sobre eventuais reações de Moscou, argumentou que a Rússia poderia responder de maneira hostil a qualquer iniciativa estratégica do país.

A discussão ocorre em um contexto de crescente tensão regional. Integrante da Organizacao do Tratado do Atlantico Norte (Otan) e da Uniao Europeia, a Polônia é uma das principais apoiadoras da Ucrânia desde o início da invasão russa, há quase quatro anos. O país compartilha fronteira tanto com a Ucrânia quanto com Belarus, aliada de Moscou, e com o enclave russo de Kaliningrado. Incidentes envolvendo a entrada de drones russos no espaço aéreo polonês, no ano passado, intensificaram a preocupação com a defesa territorial.

Em abril, tropas da Otan devem reforçar a chamada Operação Escudo Oriental, iniciativa de Varsóvia voltada à ampliação da segurança nas fronteiras. Paralelamente, o tema nuclear ganhou novo impulso após a Conferência de Segurança de Munique, onde o chanceler alemão Friedrich Merz revelou diálogos com o presidente francês Emmanuel Macron sobre a criação de um mecanismo europeu de dissuasão nuclear.

Apesar das declarações presidenciais, a Polônia é signatária do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares desde 1968 e não possui indústria nuclear voltada à geração de energia. A primeira usina do país tem previsão de início de construção apenas em 2028, o que evidencia os desafios técnicos e estruturais para qualquer ambição nessa área.

No campo político interno, a proposta divide opiniões. O ministro da Defesa, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, classificou o assunto como sensível e defendeu cautela, embora não tenha descartado a necessidade de fortalecer capacidades estratégicas. Segundo ele, o debate exige responsabilidade, planejamento e decisões fundamentadas.

O primeiro-ministro Donald Tusk, adversário político de Nawrocki, também sinalizou mudança de postura nos últimos meses. Se antes considerava desproporcional a ideia de contar com armamento nuclear, passou a defender a avaliação de “capacidades mais avançadas”, inclusive nucleares, como parte de uma estratégia de segurança nacional.

Antecessor de Nawrocki, Andrzej Duda defendia apenas a possibilidade de receber ogivas dos Estados Unidos no território polonês dentro do acordo de compartilhamento nuclear da Otan. Na ocasião, a aliança informou não haver planos de ampliar a distribuição de armas atômicas na Europa, embora os EUA mantenham dispositivos sob esse arranjo em alguns países aliados há décadas.

Pesquisa recente indica que quase 58% dos poloneses apoiam a aquisição de armamento nuclear próprio, refletindo a percepção de ameaça no Leste Europeu. Ainda assim, qualquer avanço nessa direção dependeria de mudanças significativas na política externa, em compromissos internacionais e na infraestrutura energética do país.