Publicado em 12 de setembro de 2026 às 09:41
Uma máquina silenciosa trabalha constantemente para que milhões de pessoas na América do Sul tenham acesso a água, rios e plantações. Esse mecanismo se chama Amazônia e funciona da seguinte maneira: a umidade vinda do oceano produz chuva sobre a floresta; essa água é absorvida do solo pelas árvores, e lançada de volta na atmosfera em forma de vapor; o vento, então, espalha, esse vapor por todo o continente, fazendo chover em diversas regiões.>
De acordo com a pesquisadora Julia Valentim Tavares essa é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior "máquina de chuva" do planeta. Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar para a atmosfera de 200 a 300 litros de água todos os dias.>
“Imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu. É o que nós cientistas chamamos de rios voadores.">
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, entidade que reúne mais de 350 cientistas dedicados a estudar o bioma, destaca que a floresta é a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono a níveis local, regional e global.>
“Em outras palavras, a Amazônia sustenta a vida, não só na região amazônica, mas no planeta como um todo.">
As duas pesquisadoras participaram da última edição do TEDxAmazonia, no final de agosto, no Equador.>
Alerta>
Além de frisar a importância desse sistema hídrico, as cientistas fizeram um alerta: a devastação da Amazônia já está afetando a "máquina de chuva", e sua "quebra" seria catastrófica para todo o planeta.>
De acordo com Marielos, atividades como a mineração e o narcotráfico, em conjunto com o desmatamento e as queimadas têm atingido diretamente a conectividade amazônica, fator central para a conservação do bioma.>
"A Amazônia é um mosaico vivo de ecossistemas terrestres e aquáticos interconectados entre si, que abriga uma grande diversidade de culturas. Essas comunidades têm um relacionamento profundo e interdependente com os ecossistemas através dos seus modos de vida, práticas de manejo e conhecimento.">
Segundo ela, os efeitos no clima já são mensuráveis, com evidências de que o desmatamento na Amazônia brasileira resulta em menos chuva em regiões do Brasil e da Bolívia. Em regiões desmatadas, a temperatura tem aumentado, e as épocas de seca estão ficando mais intensas e mais cumpridas.>
Julia Valentim Tavares também está medindo esses efeitos a partir do interior das árvores da borda sul da Amazônia, o chamado arco do desmatamento, onde o volume de chuvas já diminuiu e a temperatura aumentou na última década. Ela investiga por quanto tempo essas árvores podem resistir às secas, antes que suas "cordas" internas sejam danificadas.>
"Se o solo tem água, essa corda permanece intacta. Numa estação seca, o solo deixa de ter água e essa corda é tensionada. A atmosfera puxa para cima, o solo puxa para baixo, até a hora que essa corda se rompe. Se isso acontecer muitas vezes, em várias partes da árvore, essa árvore começa a literalmente morrer de sede.">
Aquecimento global>
Nos últimos anos, a região também tem sofrido com os efeitos do aquecimento global. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca da sua história, por consequência do El Nino, fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera a circulação atmosférica, e tem se tornado mais intenso.>
Marielos destaca que 88% da bacia amazônia sentiu os efeitos dessa seca, que também interferiu na "máquina de chuva". A capital da Colômbia, Bogotá, localizada na região dos Andes, sofreu desabastecimento de água. Em Quito, capital do Equador, que também está fora da Amazônia, a falta de água levou à cortes no fornecimento de energia elétrica.>
"A pergunta que todos deveríamos estar fazendo é: De onde nasce a água de inúmeras cidades latinoamericanas? De onde nasce a água que usamos na agricultura, pecuária, indússtria, produção de alimentos?", provocou a copresidente do Painel Científico pela Amazônia.>
A seca também deixou a Amazônia mais vulnerável às queimadas, que foram recordes naquele ano. Julia Valentim Tavares lembra que a fumaça dos incêndios chegou a se espalhar pelo país e alcançar até a Região Sudeste.>
"Esse fato revelou duas coisas muito importantes. Primeiro: a Amazônia nunca esteve distante, o que acontece na floresta não permanece na floresta. E segundo: milhões de pessoas dependem da Amazônia, mas ainda assim não se sentem conectadas com ela.">
A previsão de que um super El Niño ocorra este ano alarmou as pesquisadoras. "Quando existem essas secas, a floresta ou tem mortalidade por falha hidráulica, ou para de crescer, somado com os eventos de fogo. Então, a Amazônia deixa de funcionar como um sumidouro de carbono e passa a ser um emissor, aumentando o aquecimento global", alerta Julia.>
"A gente está esperando que seja tão ou mais forte do que em 2024, mas a principal diferença é que da outra vez aconteceram coisas que ninguém estava esperando. Como um rio poderia secar na Amazônia? Agora, todo mundo está falando sobre isso", enfatizou Marielos.>
De acordo com ela, a solução definitiva só será alcançada com a diminuição drástica das emissões de gases do efeito estufa, que depende sobremaneira da substituição dos combustíveis fósseis por fontes menos poluentes de energia.>
"Temos também que investir na conectividade. Restaurar as áreas degradadas, recuperar aquelas que foram desmatadas para produção, fazer essa reconexão ecológica. Porque a Amazônia já está se aproximando do ponto de não retorno, e a perda total dessa conectividade seria catastrófica para o mundo todo.">
Agência Brasil >