Um mês sem Maduro: o que mudou e o que segue igual na Venezuela

O comando do país passou para a então vice-presidente Delcy Rodríguez, que governa sob forte influência de Washington.

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 15:08

Cooperação em segurança entre Venezuela e Cuba se intensificou após desconfiança de Maduro nas próprias Forças Armadas
Cooperação em segurança entre Venezuela e Cuba se intensificou após desconfiança de Maduro nas próprias Forças Armadas Crédito: Reprodução

Um mês após a queda de Nicolás Maduro, a Venezuela vive uma transição marcada por concessões aos Estados Unidos e pela permanência do chavismo no poder. O ex-presidente foi capturado em 3 de janeiro durante uma operação militar americana e levado a Nova York, onde responde por acusações de tráfico de drogas ao lado da esposa, Cilia Flores.

A ofensiva dos EUA começou de madrugada, com bombardeios que deixaram quase 100 mortos, entre civis e militares. Diferentemente de intervenções anteriores, como no Iraque, a ação não resultou em ruptura total do regime. O comando do país passou para a então vice-presidente Delcy Rodríguez, que governa sob forte influência de Washington.

Segundo o cientista político Guillermo Tell Aveledo, trata-se de uma “estabilidade tutelada”. Embora mantenha o discurso chavista, Rodríguez tem adotado medidas exigidas pelo presidente americano Donald Trump. Os dois já conversaram por telefone, e Trump chegou a elogiar a líder interina, afirmando que “tudo está indo muito bem com a Venezuela”.

As relações diplomáticas entre Caracas e Washington, rompidas em 2019, começaram a ser retomadas. O secretário de Estado Marco Rubio, no entanto, alertou que Rodríguez pode ter o mesmo destino de Maduro caso não cumpra os compromissos assumidos.

Petróleo no centro da mudança

A principal guinada ocorreu no setor petroleiro. Sob pressão dos EUA, a Venezuela aprovou uma reforma que, na prática, encerra o modelo estatista adotado desde a nacionalização de 1976 e reforçado por Hugo Chávez. A nova legislação permite que empresas privadas atuem de forma independente, sem participação obrigatória da estatal PDVSA.

A medida reduz royalties, simplifica impostos e elimina a exclusividade da exploração, abrindo caminho para petroleiras americanas como a Chevron. Especialistas estimam que o país precise de cerca de US$ 150 bilhões para recuperar uma indústria afetada por corrupção e má gestão.

Trump também passou a controlar parte das vendas do petróleo venezuelano no mercado internacional, agora sem os descontos impostos pelo embargo. A primeira operação rendeu US$ 500 milhões.

Governo, propaganda e limites da mudança

Rodríguez substituiu ministros e oficiais militares desde que assumiu, mas figuras centrais do chavismo, como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino, seguem em seus cargos. Para analistas, o regime passa por um reajuste interno sem abrir mão da hegemonia.

Enquanto se reaproxima dos EUA, o governo mantém uma forte propaganda interna. Marchas pedem a “libertação” de Maduro, e a TV estatal exibe músicas e imagens do ex-presidente, inclusive com drones projetando seu rosto e trechos de sua fala ao tribunal americano, onde se declarou “prisioneiro de guerra”.

Anistia e clima de cautela

Rodríguez anunciou uma anistia geral, que ainda será votada pelo Parlamento. O alcance da medida é incerto, mas gerou expectativa entre familiares de presos políticos. Segundo a ONG Foro Penal, 687 pessoas continuam detidas por motivos políticos.

Ela também prometeu o fechamento do Helicoide, prisão acusada de ser centro de torturas. Para Alfredo Romero, diretor da ONG, anistia não pode significar impunidade.

Apesar do alívio inicial, o medo não desapareceu. Críticas ao governo ainda são feitas em voz baixa.

Com informações do G1